segunda-feira, 21 de junho de 2010

O ANJO-MARIA




O ANJO-MARIA
Crônica de Merlânio Maia

Um dos casos mais tocantes que vi no nosso trabalho da Cia. Do Boneca de Lata, foi o de Maria.

Maria era uma menina de apenas três anos, que, depois de muito sofrimento no sertão da Paraíba, teve diagnosticado o câncer nos intestinos já em estado avançado e, buscou tratamento no Hospital Napoleão Laureano, hospital referência na região nordeste, e foi assim que a conheci.

Maria com sua de uma personalidade forte, seu um olhar meigo, carinhoso e, por essas e outras coisas, profundamente amada e idolatrada pelos pais.

Seus pais são sertanejos, sitiantes, cuja família consistia de pai, mãe e duas filhas, Maria e Mariana e a estrutura daquela família era de dar inveja a todos. Pelo muito que se amavam sem vergonha de demonstrar que se cuidavam com muito carinho e, todos, de uma fé sincera e profunda.

Tive oportunidade de conversar muito com Luiz, o pai que, apesar de bem mais jovem que eu, tinha uma sabedoria imensa e, sempre dizia: - Para nós, a família é a coisa mais sagrada que existe na vida. Conceito vivenciado dia a dia pelo seu grupo famliar.

E foi nesse universo que apareceu o câncer em sua primogênita Maria.

Desde a sua chegada, no primeiro dia,  que Maria ficou muito ligada aos Bonecos de Lata,  Nosso grupo de brincantes do Hospital Napoleão Laureano.

Lembro que ela chegara desidratada, com a barriga imensa, sentindo muitas dores e o seu pai fervoroso não parava de pedir ajuda a Deus. Nesta hora, Maria olhou-me com um olhar profundo agonizante e eu lhe perguntei se gostaria que eu tocasse uma música e ela apenas balançou a cabeça afirmativamente.

A partir dali nasceu nossa amizade sem fim.

O tempo passou. Entre agulhas e QT, entradas e saídas do Hospital. Sempre é um tratamento duro. Uma luta a cada dia. Ela ia para sua casa no sertão e voltava ao Hospital

Foram muitas alegrias e tristezas, vitórias e derrotas, cirurgias e recuperações, cantos e contos, nossa amizade se consolidou e tivemos muitos momentos intensos, em que ela e a sua família muito me ensinaram sobre a fé e sobre o sofrimento.

Quando Maria completou cinco anos, foi para o sertão e perdi um pouco o contato com eles, até que num sábado, chegamos ao hospital e fizemos nossa visita inicial e lá estava Maria. Muito grave, muito mal, sequer abriu os olhos, apesar de Luiz, seu pai, ter dito a ela que o Boneco de Lata estava ali do seu lado. Falei baixinho que a amava, me despedi com carinho, ela esboçou um sorriso doloroso e fui fazer meu trabalho de cantoria com as outras crianças.

Terminado a cantoria, voltei ao leito de minha pequena amiga e o que presenciei jamais poderei esquecer: Maria acabara de falecer! Todos choravam, enfermeira, médica, os Bonecos de Lata, sua mãe e seu pai!

Então, comovidíssimo, vi seu pai pegá-la nos braços e esticando-os para o alto, como uma oferenda a Deus, com a voz embargada de pranto dizia:

“- Eis aqui, Meu Deus, aqui está o teu anjinho que um dia me presenteaste e este anjo, Senhor, me fez tão feliz!... Agora,  Senhor, te devolvo este presente lindo, para que ela possa ser feliz ao teu lado sem dor e sem sofrimento. Obrigado meu Pai, pelos dias que tive este lindo anjinho na minha casa alegrando minha família. Vem receber, meu Senhor e faz ela feliz no Teu reino de luz e paz...”

E caiu num choro doloroso, acompanhado por todos que ali se encontravam.

Mas confesso a você, caro leitor, que até agora, ainda me comovo só com a lembrança daquela cena em que o pai devolvia o seu anjo a Deus. O Anjo-Maria!

4 comentários:

Santana disse...

TOCANTE, Merlânio e ter esta experiência é um PRESENTE DE DEUS e dar conhecimento da mesma é um ato de Caridade a todso que precisamos aprender com estes "ANJOS"!

merlaniopoeta.blogspot.com disse...

É verdade, Santana,

Você, como ninguém, conhece a realidade das crianças com câncer e sabe bem que é verdade tudo isto.

Valeu e obrigado.

Merlânio Maia

Betania Mélo disse...

Merlânio, grande poeta!

Esta história que vc nos relatou me emocionou bastante e a grande liçao que podemos tirar dela é que a fé não tem fronteiras, nem nível cultural ou social, nem religião. Ela é inerente a todos os seres humanos, basta que façamos uma introspecção para podermos encontrá-la bem no íntimo do nosso ser!Basta que sejamos humildes para acreditarmos que além de todo esse mundo que podemos enxergar, existe um outro, infinito,invisível, que é o nosso verdadeiro Lar, governado e abençoado pelo Mestre Jesus. Aproveitemos cada minuto com os entes queridos, pois eles não são nossos, são presentes Divinos que serão devolvidos ao seu verdadeiro Senhor quando chegar o momento. E quando esse momento chegar só nos resta agradecer à Deus por ter nos dado a oportunidade de conviver com seres tão amados! Um grande abraço fraterno irmão!

Nevo disse...

Grande Merlânio!
Somente a alma sensível de um poeta é capaz de tocar corações calejados pelo tempo e pelas agruras da jornada terrena!
Bastante significativo seu depoimento, que nos enche de esperanças de dias melhores, quando a real fraternidade reine entre todos nós.
Muito agradecido!